24/06/2014

Entrevista concedida ao Jornal ''Tribuna Feirense''

Além de bailarina profissional, Bia Vasconcelos é diretora do
Centro de Cultura Amélio Amorim/ Secult BA.

Bia Vasconcelos: gingado, sensualidade e fusão contemporânea entre o moderno e o ancestral

Entrevista concedida ao jornal Tribuna Feirense no final de março deste ano.

O ritmo tribal de Bia Vasconcelos

ORDACHSON GONÇALVES

O gingado, a sensualidade, a fusão contemporânea entre o moderno e o ancestral. Todos estes aspectos estão presentes na arte cênica da dançarina Bia Vasconcelos, precursora da dança tribal em Feira de Santana. O gênero é considerado uma referência estética de dança, figurino e música.

Bacharel em Direito pela UESC, Bia Vasconcelos é bailarina, professora e coreógrafa de ballet clássico, dança do ventre, folclore árabe e dança tribal. Iniciou seus estudos em Ballet Clássico (Royal Academy of Dancing – RAD) no ano de 1997 e desde então buscou diversificar e ampliar seus conhecimentos em dança, visando uma melhor qualidade técnica e estética do trabalho que realiza.

No início do mês ela participou de mais uma edição do Shaman´s Fest, realizado entre 06 a 09 de março, em Jundiaí-SP, evento que é considerado o maior encontro de Tribal Fusion da América Latina. Em entrevista concedida ao Tribuna Feirense, Bia fala sobre a sua participação neste evento e sua trajetória na dança, que a coloca como um dos principais nomes do estado no gênero Dança Tribal.



Há quanto tempo a dança faz parte de sua vida e como descobriu a dança tribal?

Iniciei meus estudos em dança em 1997 com aulas regulares de Balé Clássico pelo método da Royal Academy of Dancing na Escola de Dança Elisângela Gomes em Feira de Santana. Sempre fui uma criança e adolescente ativa. Também participava de peças na escola e seguia com o Ballet Clássico, importante para me dar as noções fundamentais e os princípios norteadores da dança. 

Ao entrar na faculdade de Direito (formei em 2007 na Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus), dei uma pausa para aprofundar meus estudos acadêmicos. No entanto, não consegui ficar muito tempo longe e dessa vez comecei a treinar a Dança do Ventre por sugestão de meu namorado na época.
Me apaixonei pela dança oriental e em pouquíssimo tempo tive a oportunidade de monitorar as aulas de minhas professoras, Soraya Loureiro (PE), Kátia Jade (BA) e Rosane Araújo (BA). A experiência do clássico facilitou bastante a assimilação dos movimentos e da técnica oriental. Naquele momento soube que seguiria lecionando e investi, de fato, numa carreira profissional.

Estudando e pesquisando bastante a dança do ventre, descobri um estilo até então recente no mundo inteiro: o “American Tribal Style’’ e ‘Tribal Fusion Bellydance’’. Naquela época não existiam professoras deste estilo na minha cidade e tão pouco em outros estados do Brasil, com raríssimas exceções.
Parti então para um estudo autoditada mesmo, porém com bastante disciplina. Comprava DVDs internacionais de aula (já que não havia material produzido no Brasil até então) e treinava todos os dias. Só em 2007 fiz meu 1º workshop presencialmente com uma professora de tribal, a Bela Saffe, em Salvador/ BA.  
Felizmente, o início de minha trajetória no Tribal coincidiu com o período de crescimento do estilo no País. Este crescimento e procura acentuados oportunizou a vinda das bailarinas estrangeiras, precursoras da modalidade. Investi nas aulas e pelo País afora fiz workshops com inúmeras bailarinas nacionais e estrangeiras, dentre elas a Samantha Emmanuel (UK), Anasma (FR), Sharon Kihara, Mardi Love, Kami Liddle, Mira Betz, Lady Fred e Rachel Brice (EUA), dentre outras.


Como você define a dança tribal?

O Tribal é um estilo que foi desenvolvido e sistematizado nos Estados Unidos no final dos anos 80 e que utiliza a dança do ventre como base estrutural, mas mescla outros gêneros como a dança indiana, flamenca e folclóricas de várias ''tribos'' do mundo. Há 2 vertentes principais: o  ATS (American Tribal Style) e o Tribal Fusion. O primeiro, desenvolvido pela bailarina Carolena Nericcio em São Francisco/CA, caracteriza-se pela improvisação coordenada de gestos, um repertório comum firmemente estabelecido e dogmatizado, trajes folclóricos ricamente adornados, músicas folclóricas e uma postura altiva, típica do flamenco. Já o Tribal Fusion é, como a tradução sugere, uma fusão do ATS (necessariamente) com alguma outra influência que vai da dança contemporânea, break dance até a dança dos Balkans (leste europeu) e Vaudeville. Como se pode notar, o Tribal Fusion acrescentou um leque de possibilidades ao estilo original e trouxe consigo a simplificação dos trajes, o uso de coreografias e a utilização de músicas ocidentais modernas.

Existe alguma ligação do Tribal com as danças folclóricas aqui no Brasil?

O Tribal permite a  fusão do ATS com elementos de danças étnicas de várias partes do mundo, dentre elas as danças populares brasileiras. Desta forma, vários grupos passaram a fusionar o tribal com danças folclóricas nacionais, surgindo então o Tribal Brasil. Elementos das principais danças regionais do país são utilizados para compor a modalidade, dando uma nova roupagem e enriquecendo o estilo que é desenvolvido aqui.


Você é a pioneira desse estilo em Feira. Como tem sido a aceitação?

Comecei a ministrar a dança tribal em 2008, até então inexistente na cidade, no meu próprio espaço de danças. O trabalho que fui realizando gerou o interesse por um número cada vez maior de alunos o que oportunizou a migração das minhas aulas para o Centro Universitário de Cultura e Arte da UEFS em 2009.
Desde então as oficinas de tribal funcionam com as turmas sempre cheias e a Instituição se tornou a principal referência no que concerne as aulas de tribal em Feira. O CUCA também é o principal parceiro e realiza junto comigo o Oriental Fair: Festival de Dança Bahia/ Brasil que movimenta há 4 anos o cenário da dança tribal da região. Também passei a ministrar as oficinas de Tribal em outro importante Centro Cultural, o Maestro Miro, que oferece as aulas gratuitamente para toda a cidade ampliando ainda mais o acesso de público ao estilo que ministro.

Desta forma, a aceitação tem sido super positiva uma vez que as aulas estão sempre cheias e foi possível realizar desde 2011 o Festival Oriental Fair que se solidificou a ponto de fazer parte do calendário oficial dos eventos mais importantes do País, trazendo bailarinos de todos os estados que além de ministrarem cursos, se apresentam no Show Oficial que é gratuito para toda a comunidade.


O Oriental Fair é um evento que têm ganhado bastante repercussão. A que você deve este sucesso?

O sucesso do Oriental Fair só é possível porque temos uma equipe comprometida com o evento durante todo o ano. O elenco do evento é formado pelas alunas dedicadas dos espaços culturais onde ministro aulas e de convidados vindos de fora. Durante essas 3 edições do evento já passaram por Feira de Santana bailarinos profissionais da Paraíba, Rio Grande do Norte, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal além de todo interior do estado da Bahia e capital havendo um grande intercâmbio e troca de informações entre todos os envolvidos. Para os alunos é uma experiência enriquecedora dançar num grande palco com toda a estrutura que é o do OF e ao lado dos maiores bailarinos do estilo no País. Além de funcionar como um incentivo a permanecer nas aulas, sinto que a cada ano os alunos se aperfeiçoam fazendo com que o evento ganhe contornos cada vez mais profissionais. Ademais, um diferencial importante do OF é que ele é temático, ou seja, a cada ano as coreografias, músicas e cenário dizem respeito a um tema importante, geralmente histórico, tornando-o muito mais didático e atraente a todos os públicos, não só os da dança. Não posso deixar de citar as importantes parcerias que o evento mantém, sem as quais seria impossível viabilizar um evento do porte do Oriental Fair mantendo workshops com preços populares e shows gratuitos.


Como você se sente ao representar a cidade de Feira de Santana pelo País afora? 

Sinto muito orgulho de minha cidade, que abrigou e enaltece o meu trabalho desde o início. Representar Feira de Santana em todos esses eventos pelo País é motivo de grande orgulho. Hoje Feira já é lembrada por sediar um número considerável de alunos da dança tribal. Nosso grande público e alunos interessados ganharam destaque nos festivais nacionais uma vez que muitos bailarinos de fora fazem questão de vir dar aula e se apresentar em nossa cidade.


Como foi a experiência de participar mais uma vez do Shaman´s Fest?

O diferencial deste evento é que contou com a presença da bailarina americana Rachel Brice, uma das fundadoras do Tribal Fusion e a fonte de grande inspiração para a maioria dos praticantes do estilo no mundo inteiro. Tive a oportunidade de fazer o curso profissional restrito a apenas 30 bailarinos selecionados da América Latina, além de ter me apresentado no Show de Gala. Representei não só minha cidade, mas também o meu estado no curso profissional e no grande show que já é considerado o maior encontro de Dança Tribal da América Latina.

O que você está trazendo para Feira de Santana, a partir dessa experiência?

Acreditando que a principal característica da dança é a partilha de conhecimentos entre os envolvidos, trarei para a cidade uma série de workshops onde apresentarei as vivências e técnicas ministradas pela Rachel Brice durante o Curso Profissional. Desta forma, mesmo as pessoas que não puderam estar presentes no evento terão a oportunidade de se reciclar a partir desses cursos que lecionarei na cidade. Serão 4 módulos e o a primeira aula está agendada para o início de abril em comemoração ao mês que é dedicado à dança. Nos cursos serão abordados as principais técnicas, as sequências coreográficas e seleção musical adotada pela norte-americana.


Como você avalia a realidade deste estilo na cidade?

O Tribal é uma dança recente no mundo inteiro e em nossa cidade apenas começou em 2008. Apesar de todo o avanço que foi conquistado ano a ano, sinto que ainda há muito trabalho a ser feito no que concerne a divulgação do estilo (pois muita gente ainda não o conhece), aprimoramento da técnica que observo em muitos praticantes e profissionalização/ aperfeiçoamento dos grupos que se apresentam. É preciso também muito estudo e bom senso, pois nem tudo que é fusionado pode ser chamado de Tribal. Porém, o mais importante é que haja união e entendimento por partes de todos que se propõem a dançar o Tribal, pois como o nome já diz, somos membros de uma mesma ''tribo'' onde elementos como respeito, solidariedade, gratidão e humildade devem estar sempre presentes.


Quais os planos para 2014?

Além dos workshops especiais, o ano de 2014 promete muitas surpresas boas! Vem aí a 3ª edição do Festival Belly Fest que será realizado entre maio e junho e a 4ª edição do Oriental Fair: Festival de Dança Bahia/ Brasil que será realizado em novembro. Já estão confirmadas atrações vindas de São Paulo, Rio Grande do Norte e Distrito Federal. Serão mais de 12 horas de aulas e shows gratuitos durante 3 dias de atividades relacionadas as danças orientais. Em todas as edições do evento houve sucesso de público e grande repercussão nacional. Não será diferente nesta 4ª edição que promete surpreender a todos e se tornar um evento inesquecível mais uma vez! Desde já estão todos convidados a fazer parte desta tribo!


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